Vou descarregar aquilo que minha alma carrega como um fardo pesado e amargo que me corroi o tempo todo e que vivo escondendo para não assustar aos outros.
Recorte: num grupo, numa palestra, fomos convidados a falar aos demais de quem e como alguém importante para nossa vida nos influenciara. Deixei todos falarem das suas avós, dos seus pais e das suas mães. Falei de coração e o nome que saiu foi: Sidney Sheldon, falecido escritor romancista que retratou heroínas fortes e lutadoras, com histórico familiar bem complexo. Todos ficaram impressionados com minha "frieza". Mas, não era pra falar a verdade???
Como posso citar influências de mãe e pai se foram, na sua maioria, negativas.
Ainda hoje recebi uma mensagem de celular da minha mãe pedindo desculpas pelos seus erros (hã???) e dizendo que amava a mim e a minha filha.
Tá, senta lá, mainha...
Agora vamos entender o contexto dessa tão singela e humilde mensagem.
LINHA DO TEMPO:
2005 - última visita feita pelos meus pais à minha casa - haviam esquecido do meu aniversário e resolveram compensar;
2006 a 2009 - continuaram esquecendo a data e não compensaram mais nada (pra quê?!);
2010 - recebi no trabalho a visita da minha mãe no dia do meu aniversário. Almoçamos, conversamos e foi tudo muito lindo e maravilhoso (mentira!);
2011 - que surpresa!!! esqueceram de novo. Ah! Devo ser muito má...
Além de esquecer na data, nos dias posteriores nenhuma ligação, mensagem de texto, sinal de fumaça. NADA! E sempre um discurso de pessoa vitimizada pela maldade daquela filha má, desnaturada. (EU!).
Pra dar aquela inovada no quadro, este ano, 2012, esqueceram também o aniversário da minha filha. Pior! Todos esqueceram: os seus avós, os seus tios.
Já sei, esse é o meu castigo por ter escolhido vir como integrante dessa família.
Ou então, por ser uma garota má.
Ah, vao todos à merda!!! TODOS!!!
E não retiro ninguém do bolo... Se é pra machucar, vamos machucar.
Sou boa nisso.
O que é que pode pedir uma mãe que fica distante, só se lamentando, se fazendo de vítima, coitadinha. Que conta histórias muito tristes de incompreensão, de maustratos (da parte dos outros, claro!). Da sua parte, relata lindos contos de fadas sobre como amou, zelou e cuidou das suas filhas, de como sofreu, de como chorou. Buá!
Fez tanto e agora uma de suas filhas a despreza, pelo que foi e pelo que continua sendo: uma merda de mãe!
Porque mãe se fizer sacrifícios não os faz por si, faz pelos filhos.
Uma mãe que se chora, é por que sofre querendo e batalhando pelo sucesso e pela felicidade dos seus filhos. E que sofre em dobro quando os vê sofrer.
Que dá a sua vida pelos filhos e não os troca por qualquer pedacinho de músculo guardado no meio das pernas de um qualquer. Que passa fome, mas calada e sorrindo pela certeza de que os seus filhos estão bem alimentados.
Que briga sim, que exige sim, que corrige sim, mas que faz por e com amor. Que entende que ser mãe é ser bendita, que Deus lhe outorgou esse milagre e sabe reconhecer essa missão.
Eu sou mãe.
Solteira, lutadora, mato e morro pela minha filha.
Brigo até com o próprio capeta por ela. Vou a pé ao Alasca, de lingerie.
E vou sorrindo por saber que estarei preservando a sobrevivência, o bem estar, a felicidade, o sucesso da minha filha.
Invisto nela, acredito nela, confio nela. Ela sou eu, alguém a quem eu amo com prazer, não por obrigação.
O rostinho que tenho prazer em beijar, em cheirar, em sentir seu calor.
O corpo que amo abraçar, fazer rir, e se fizer ela chorar, choro junto.
Ela sou eu. Eu sou ela.
Então, melhor será comprar briga só comigo, porque aí terá apenas o meu desprezo.
Mas se comprar briga com ela, terá todo o meu ódio, toda a minha fúria, toda a minha gana.
Eu realmente estou agora pronta pra vomitar esse rancor que só cresce.
Quem quiser, que venha!
Sei que é contraditório faalr em ódio e em amor em uma mesma postagem. Mas, são os opostos que se completam. Um sem o outro inexiste.
Talvez, Deus em sua infinita sabedoria saiba porque minha vida tinha que ser essa. Ou Freud.
Fato: eu não sei... E quer saber,
FUCK YOU!
Alma Involuntária
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
domingo, 17 de abril de 2011
Recalques
Como já cheguei até aqui, posso me estender um pouco mais nesse tema: meus recalques.
Primeiro, pra entender meu complexo de Édipo e minhas frustrações vale dizer que hoje tenho uma relação legal com meu pai. Nós conversamos, ele já se abre mais comigo e isso é porque sou a filha que menos deu trabalho a ele. Sua filha mais velha é cheia de complexos e ele não a entende (N.A.: ele não a ouve!). Seu filho macho é distante dele. Sua filha caçula é totalmente dependente dele. E eu. Nunca dei trabalho, nunca fui presa, não dependo financeiramente dele. Não tenho problemas, pelo menos não que ele saiba. Isso se dá com minha mãe também. Ela me parece que tem uma limitada capacidade de amar. Um por vida. Talvez dois. Meu irmão e meu pai, nessa ordem. Após mais de 15 anos separados, meus pais reataram. Antes eram infelizes sozinhos. Agora são infelizes juntos.
Eu sou meio que o alter ego da família. Falo o que se deve falar, com muito respeito claro. Tento não invadir a privacidade nem constranger ninguém. Meu irmão fala ironicamente que eu gosto de "dar uma de psicológa". Confesso que isso me ofende. Mas ele não sabe disso (ou não sabia...). Mas sempre ponho o dedo na ferida e os faço enxergar mais longe, corrigindo seus enganos e, de certa forma, conseguindo trazê-los à razão.
Voltando ao cerne da postagem, carente da figura paterna, transferi meus amores para um perfil singular: quarentões. Freud explica.
Uma vez me lembro que estava no auge da adolescência, naquele período em que por si só já é complexo, acrescente a isso um ambiente familiar de abusos e exploração. Morávamos na casa da minha avó, falecida, com meus 6 tios. Minha mãe ia trabalhar cedo, voltava no fim do dia. Minha irmã ainda fugia. E eu ficava dividida entre os afazeres domésticos e os estudos. E havia também as surras e as humilhações. Um dia aos 14 anos, resolvi fugir pra morar com meu pai sonhando com uma vida mais digna. Juntei uns trocados de serviços prestados pela vizinhança, juntei minhas coisas numa caixa de papelão e fui embora. Como podia pensar em ser feliz morando com um pai que ficara ausente por tanto tempo, numa casa de 2 cômodos, dividindo este espaço com mais 4 pessoas? Eu pensava que seria feliz morando com meu pai. Pensava em trabalhar e estudar. Primeira decepção. Meu pai me proibia de fazer tudo. Mal deixava-me estudar à noite. A mulher dele fazia tantas fofocas quando pensava que eu dormia que até eu ficaria com ódio de mim. Então, um dia de chuva meu pai chegou à noite do trabalho, era motorista de transporte coletivo, e ouvindo sobre uma briga minha com meu irmão, me deu uma surra de corda de nylon. Passou um filme na minha cabeça. Era inimaginável voltar para aquela vida de abusos de novo. Não fora pra isso que eu havia fugido da casa da minha mãe... Saí pela rua desesperada, cruzando a rua à noite esperando um carro me atropelar, desiludida e desamparada. Quis morrer naquele dia, pois estava destruído diante de mim aquele sonho de viver uma vida mais decente com meu pai. O homem que deveria me amar acima de tudo. Que deveria me proteger, me amar, me acalentar. Ao voltar pra casa, triste por ainda estar viva, meu pai largou essa: "você veio atrapalhar minha vida. Quando eu fui embora, não deveria nem ter deixado endereço pra vocês não virem me incomodar." Eu morri um pouco naquele dia. Não só pelas palavras ofensivas, mas também pelo olhar frio que ele tinha.
Resultado, fui embora pra trabalhar com uma senhora dona de um restaurante. Eu era uma espécie de ajudante da cozinha e entregadora das marmitas. Não recebia salário e também fui explorada até a alma. Não só por ela, mas pela família toda. Era a babá dos seus netos, buscava e levava-os na escola, servia de garçonete nas festas de aniversário deles, era empregada doméstica substituta. E isso tudo sem salário. Fiquei com essa senhora uns 6 meses, até o dia em que ela tentou me trocar por um saco de feijão.
Aí fiquei batendo cabeça, fui ser empregada doméstica numa casa cuidando de um menino de três anos que tinha sarna e fazia as necessidades na fralda que eu tinha que lavar, ferver e passar, além de fazer as refeições da família, organizar e manter a casa arrumada, lavar as roupas da casa, fazer as compras, cuidar do menino e estudar. Eu, com 15 anos levava uma vida muito difícil, mas como eu não tinha que suportar abusos físicos de quem deveria me proteger, estava por minha conta e risco estava satisfeita. Era dona do meu nariz. As dificuldades eu tirava de letra porque era uma heroína de Sheldon. Tinha criatividade e até hoje sempre tenho um plano B. Em qualquer situação. Pelo menos aquelas pessoas nada me deviam. Quer dizer, só o salário.
Me envolvi com um homem quarentão, muito esperto que levou minha inocência. E nada deixou.
Mas no auge da usurpação eu pensava "vou fazer isso pra provar pra mim que eu tenho a liberdade de fazer". Era um desafio imposto a mim, por mim, numa verdadeira prova de imaturidade e inocência. Ele se deu bem. Quis me sustentar e eu não quis. Ele queria uma escrava sexual e eu não valia tão pouco assim. Até hoje penso assim. Pro melhor ou pro pior.
Quebrei a cabeça muitas vezes, mas voltei a voltar na casa da minha mãe também. Também voltei a morar com meu pai. Mas sem aquela dependência. Eu apenas dormia lá. Na casa da minha mãe era proibido chegar depois das 21h. Então eu dormia fora e isso me custava menos do que chegar depois das 21. Era uma série de humilhações, xingamentos, agressões físicas por estar interrompendo o sagrado sono de uma trabalhadora. Voltar no dia seguinte era indolor. Ninguém me perguntava onde havia dormido, com quem, onde, como, nem nada. Ninguém se interessava. Eu morava na casa da minha mãe, mas não interagia com ela. Não podia usar nada, porque ouvia que não era meu, que não me pertencia. Minha mãe fazia questão de tudo: copo, comida, colher, etc. E olha que eu ainda ajudava nas contas.
Quando engravidei, um dia minha mãe veio com tudo pra me agredir: queria me jogar da cozinha porta abaixo (uns cinco metros). Eu revidei e deste dia em diante nunca mais ela me agrediu. Detalhe, eu tinha 20 anos e aí sim precisei sair definitivamente da casa dela. Até hoje, aos 35 anos meus pesadelos são sempre assim: moro com minha mãe, tento ir embora e não tenho como sair.
Fui morar sozinha e ainda hoje pago o preço pelas minhas convicções. Hoje não tenho expectativas para com aqueles que deveriam me proteger e me amar. Sou mais independente. Mesmo que isso me custe carono fundo do meu coração e na essência da minha solidão. Mesmo que isso ainda me provoque alguma dor... Mas isso aí já é outro capítulo.
sábado, 19 de março de 2011
Desenganos...
Relendo minhas escrituras percebi um tom de instinto piedoso. Não me entendam mal. Ninguém de perto é normal e por falta de um terapeuta para desaguar meus mares de rancores, despejo aqui, neste ambiente minhas frustrações, medos, traumas, anseios e segredos.
Já recebi críticas por estar abrindo a alma, mas há um sentimento que me impele e vou seguir meu coração. Até me sinto mais leve. rsss
Quem não gostar, não goste. Cada um com seus problemas.
Então, não escrevi para inspirar piedade pura e simplesmente. Quem convive comigo sabe que não sou uma pessoa amargurada, ao contrário: sou pra cima, alto astral, solidária, gosto de abraçar, beijar, colaborar. Sou "leve".
Mas sou o que sou por causa da minha história. Derramando essas lágrimas presas há tanto tempo consigo passar pelo processo de catarse e curar minhas neuras de uma forma deliciosamente perigosa e sadia. Perigosa porque estou falando de terceiros também, e deliciosa porque posso reler minha história com um novo olhar e talvez entender agora o que antes eu não entendia (ou não entendo...).
Então por favor, leiam sem moderação.
domingo, 16 de janeiro de 2011
História Repetida
Já contei que sou meio recalcada. Às vezes sinto que repito algumas coisas que ouço de alguém, atos, palavras, reações... Mas, ao longo desses anos, aprendi com a minha mãe que algumas situaçõs eu tenho a obrigação de jamais repetir.
Principalmente quando se trata de algo relacionado à minha filhinha. Por exemplo, se eu me vejo diante de alguma situação em que preciso escolher como tratá-la, parto do princípio de como minha mãe me tratava. Aí, faço o contrário. Assim sei que estou fazendo a coisa certa.
Mas, tem coisas que me vejo repetindo, mesmo me policiando ao extremo. Em relação aos meus amores, por exemplo.
Mantive um relacionamento de quase 9 anos. Era muito amor, muita dedicação. Foi o mais longo da minha vida. Dei-me quase por completo. Mas, chegou um momento em que me senti meio obrigada a escolher entre um amor e outro: ou ele, ou a minha filha. Dizem que os filhos são os pontos fracos das mães. Não entendo isso...
No meu caso, a minha filha é o meu ponto mais forte. Sem ela eu talvez estivesse mais à deriva neste barco que é a vida. A minha filha não foi planejada, mas foi muito, muito desejada. Sempre me senti muito só. Como se eu não fizesse parte da história que estava sendo contada. Tentava me ver como protagonista dessa história, mas sempre me via como uma figurante. Nunca fui importante para ninguém. Era cheia de amor para trocar e nunca havia encontrado alguém que eu soubesse que merecesse o meu amor incondicional.
A minha filha mudou isso. Ela é a minha melhor criação, com ela eu sei que desempenho o meu melhor papel. Me sinto completa ao olhá-la, ao falar com ela, a cheirá-la, a abraçá-la. O simples fato de lembrar que ela existe me dá uma felicidade que não daria para escrever com essas linhas. Lembrar dela me faz sorrir de felicidade.
Ela sou eu. E eu sou a minha mãe. Tento recuperar sentimentos há muito guardados em mim. Tento fazer com ela o que gostaria que a minha mãe tivesse feito comigo. Busco redimir a minha mãe no meu coração através da minha filha. Nem sempre dá certo, principalmente quando estamos juntas: minha mãe e eu. Ela parece que sempre tem algum ponto negativo para abordar, sabe? E nessas horas me dá vontade de perguntar: o que você sabe sobre isso? Você nunca cuidou de mim... Mas, me calo. E sinceramente nem sei porque. Talvez exista em mim esperança. Ou talvez eu tenha dado minha mãe como um caso perdido...
Sempre que tenho alguma dúvida sobre o que fazer, busco o conforto de saber que tenho que fazer primeiramente aquilo que for o melhor para a minha filha. E isso é o meu leme, o meu norte.
Então, como eu estava falando desse amor de quase 9 anos. Eu tenho o dedo podre para escolher homens. Todos aqueles que balançaram meu coração, fizeram tantos estragos que foi por pura sorte de ter um tesouro como a minha filha que não desisti de viver.
O primeiro, seu pai, é um ausente. Nunca se sentiu responsável por essa filha linda e maravilhosa que Deus nos deu. O segundo, meu grande amor, vinha de um outro relacionamento com filho também e isso chocou nossa relação terrivelmente. A tal mulher não largou o osso e pronto.
O terceiro e último, o mais maduro, centrado, seguro. Encantou-me porque encantou meu tesouro, minha filha. Era adorável, amoroso, companheiro, carinhoso. Depois de certo tempo, parecia me disputar com ela e quando isso acontecia era uma merda. Porque eu, claro, ficava sempre com minha exclusívissima prioridade: ela.
A coisa foi degringolando, e aí, ...deu!
Nunca pensei que ela estivesse exposta a qualquer risco com ele e quando vi essa possibilidade foi horrível. Alías, vi que nós duas corríamos um grave risco diante de alguém descontrolado, passional, cruel, vingativo, dominador, canalha, violento. Foi uma triste surpresa ver que me enganara por tanto tempo com alguém para com quem investi tanto por nada.
Mas, não titubeei em momento algum ao encerrar essa relação. Jamais pensaria no risco que corremos, e diante dele, só pude rezar para que nada de grave acontecesse primeiro a ela, depois a mim. Graças Deus estamos protegidas agora.
Tem lições que nem minha mãe pôde me ensinar.
Lição vivida, lição aprendida.
Obrigada Deus, pela saúde da minha filha.
Amém!
sábado, 31 de julho de 2010
REMINISCÊNCIAS
Relendo meus escrivinhados, percebi que faltaram informações necessárias. Ei-las...
Na época em que saímos pela primeira vez da casa da minha avó, minha mãe fumava (aliás, desde os 15 anos de idade...). Então, quando ela chegava cansada do trabalho à tarde, sempre ficava pedindo coisas, tipo me dá um café, me dá um cigarro. Só que, o cigarro geralmente era acendido por nós, no fogão. Mas não podia queimar. Tinha que ser branquinho, branquinho... Então, nós, minha irmã e eu, tínhamos que dar uma puxadinha no cigarro. Foi assim que, aos 15 anos também passei a "tragar" o cigarro e fiquei viciada. Minha irmã então...
Lembro-me que uma noite de sábado minha mãe pôs uma panela de pressão com feijão no fogo e saiu. Estávamos dormindo, minha irmã e eu. Aí a panela pegou fogo, foi um fumaceiro. Nós acordamos com os vizinhos que arrombaram a janela, nos tiraram de lá e apagaram o princípio de incêndio. Foi assustador. Quando procuraram minha mãe, ela estava em um bar com amigos.
Nesta época, vimos muitos amigos dela passar pela nossa casa. Alguns eram legais, nos dava coisas, doces etc. Outros maliciosos...
Foi Deus que nos protegeu, porque ficávamos sozinhas o dia inteiro. Tinha uns que nos levava a bares, pagava refrigerantes, conversava. Lembro que andávamos descalças pela rua, como desvalidas... Eu sempre fui mais "safa". Sabia distinguir um amigo de "aquele amigo". Minha mãe tinha coleções de livros, tipo romances, e eu já lia autores como Sidney Sheldon, então já tinha conhecimento de algumas coisas relacionadas à sexo...
Posso afirmar sem medo de errar que eu sou uma das heroínas de Sydney. Graças a ele pude sobreviver, sem ele, não sei não...
Na época em que saímos pela primeira vez da casa da minha avó, minha mãe fumava (aliás, desde os 15 anos de idade...). Então, quando ela chegava cansada do trabalho à tarde, sempre ficava pedindo coisas, tipo me dá um café, me dá um cigarro. Só que, o cigarro geralmente era acendido por nós, no fogão. Mas não podia queimar. Tinha que ser branquinho, branquinho... Então, nós, minha irmã e eu, tínhamos que dar uma puxadinha no cigarro. Foi assim que, aos 15 anos também passei a "tragar" o cigarro e fiquei viciada. Minha irmã então...
Lembro-me que uma noite de sábado minha mãe pôs uma panela de pressão com feijão no fogo e saiu. Estávamos dormindo, minha irmã e eu. Aí a panela pegou fogo, foi um fumaceiro. Nós acordamos com os vizinhos que arrombaram a janela, nos tiraram de lá e apagaram o princípio de incêndio. Foi assustador. Quando procuraram minha mãe, ela estava em um bar com amigos.
Nesta época, vimos muitos amigos dela passar pela nossa casa. Alguns eram legais, nos dava coisas, doces etc. Outros maliciosos...
Foi Deus que nos protegeu, porque ficávamos sozinhas o dia inteiro. Tinha uns que nos levava a bares, pagava refrigerantes, conversava. Lembro que andávamos descalças pela rua, como desvalidas... Eu sempre fui mais "safa". Sabia distinguir um amigo de "aquele amigo". Minha mãe tinha coleções de livros, tipo romances, e eu já lia autores como Sidney Sheldon, então já tinha conhecimento de algumas coisas relacionadas à sexo...
Posso afirmar sem medo de errar que eu sou uma das heroínas de Sydney. Graças a ele pude sobreviver, sem ele, não sei não...
sábado, 17 de julho de 2010
ALMA INVOLUNTÁRIA
Bom, nós sobrevivíamos assim. Minha mãe, depois de nos surrar, chorava enquanto pensava que dormíamos. Eu a odiava ainda mais por isso. Se estava arrependida, por que fazia tudo de novo no dia seguinte? Às vezes fazia até pior!
Meu silêncio para minha mãe era pirraça. Eu até hoje tenho dificuldades de me expressar.
Tem muito mais coisas desse período, mas quero me reservar a falar de mim. Outros assuntos são legalmente proibidos e perigosos. Quem sabe um dia crio coragem e escrevo em um livro contando TUDO!?.
Sempre fui excelente aluna e as notas altas não serviam pra aplacar o ódio da minha mãe por nós.
Um dia meu pai apareceu. Alegria, felicidade...
Mas, tudo voltou ao que era: meu pai longe, meu irmão mais perto, mas ainda longe, minha mãe mais amargurada e ressentida, nós carentes de amor...
Lembro-me que eu andava na chuva, pés descalços caçando meu pai pelas ruas da minha cidade, chorando à vontade porque minhas lágrimas eram escondidas pela chuva e ninguém me perguntaria o motivo de estar chorando... Um dia, vi meu pai chegando, alegria, felicidade e orgulho ao dizer que finalmente eu iria ganhar a bicicleta que ele prometera se passasse de ano. Eu lhe disse que não só passara de ano, como fui a melhor aluna da sala. Perguntei quando ele iria me comprar a bicicleta e ele respondeu: só se for uma de madeira... Eu me senti um lixo...
Um dia, era meu aniversário e minha mãe iria viajar a passeio. Ela esquecera...
À tarde, na casa da minha avó, eu estava triste e chorosa porque minha mãe não se lembrara e minha avó, percebendo minha angústia, perguntou-me o motivo. Quando eu lhe disse ela me lançou aquele olhar de piedade. Depois me abraçou e me deu um presente. Chorei mais ainda por perceber que eu estava inspirando pena. Minha mãe voltou da viagem alegre, bêbada e feliz.
Até hoje ela esquece meus aniversários.
Passados um tempo, minha mãe foi trabalhar um outro estado e voltamos a morar na casa da minha avó, minha irmã e eu, onde quase fui estuprada por um tio. Minhas tias e tios nos espancavam todo dia. Acho que era ciúme da minha querida avó, Cândida. Eles agora tinham que dividi-la conosco.
Nos dias chuvosos eu fazia barquinhos de papel pra pôr nas poças de água que passavam na frente da casa da minha avó enquanto chorava ouvindo a música Pai de Fábio Júnior. Até hoje fico melancólica em dias de chuva, e sempre choro ao ouvir esta canção.
Um dia, meu pai veio nos buscar, porque, segundo ele, estávamos à toa enquanto nossa mãe viajava a trabalho.
Foi o melhor dia da minha vida. Eu finalmente iria morar com meu pai, finalmente eu seria amada e tratada com carinho.
Aí meu pai nos levou pra sua casa de dois cômodos, onde ele morava com outra mulher e já tinha outra filha, um bebê lindo e rechonchudo. Onde iríamos dormir? No chão, sob um tapete de uns dois centímetros. Na casa de meu pai só havia uma cama de solteiro que ele dividia com sua mulher e seu bebê. Mas pra mim, nada disso importava!
No dia seguinte, meu pai saiu com minha irmã e voltou sem ela. Havia entregue a uma família pra trabalhar como doméstica. Ele nem conhecia aquelas pessoas! Nem sabia onde moravam! Fui entregue a uma senhora viúva que tinha uma boutique. Ela me usurpou até meu nome: me chamava de Vanusa. Fui explorada até dizer chega. Era a última a dormir e a primeira a levantar. Só comia os restos de comida que ela deixava, se deixasse. Antes de sair com ela pra trabalhar na boutique, eu tinha que fazer o almoço, o café da manhã e só então acordá-la. Ela me obrigava a trabalhar de domingo a domingo. Certa vez ela me mandou fazer uma ensopado de carne com verduras. A panela estava pequena. Então ela me mandou trocar por uma panela maior. O refogado já estava fervendo há tempos no fogo. Quando virei a panela, o caldo entornou no meu pé, queimando-o. Ela gritava: meu cozido! Meu cozido! E eu ali, chorando de dor. Eu devia ter uns 11 anos e era menor do que a panela que tava no fogo.
Um dia meu pai, talvez pelo remorso, foi me buscar. Aí fomos buscar minha irmã e, pergunta daqui e dali, encontramos ela. A dona da casa nem deixou a gente entrar. E eu vi minha irmãzinha, descabelada, magra, com cara de sofrimento. Desatei a chorar e até agora quando lembro-me choro. Ela me confidenciou que quase fora estuprada pelo marido da dona da casa.
Não sei como, mas voltamos a morar com nossa mãe, que a esta altura já havia voltado de viagem. Meu pai voltou a se afastar. E as surras recomeçaram...
...(continua)...
Meu silêncio para minha mãe era pirraça. Eu até hoje tenho dificuldades de me expressar.
Tem muito mais coisas desse período, mas quero me reservar a falar de mim. Outros assuntos são legalmente proibidos e perigosos. Quem sabe um dia crio coragem e escrevo em um livro contando TUDO!?.
Sempre fui excelente aluna e as notas altas não serviam pra aplacar o ódio da minha mãe por nós.
Um dia meu pai apareceu. Alegria, felicidade...
Mas, tudo voltou ao que era: meu pai longe, meu irmão mais perto, mas ainda longe, minha mãe mais amargurada e ressentida, nós carentes de amor...
Lembro-me que eu andava na chuva, pés descalços caçando meu pai pelas ruas da minha cidade, chorando à vontade porque minhas lágrimas eram escondidas pela chuva e ninguém me perguntaria o motivo de estar chorando... Um dia, vi meu pai chegando, alegria, felicidade e orgulho ao dizer que finalmente eu iria ganhar a bicicleta que ele prometera se passasse de ano. Eu lhe disse que não só passara de ano, como fui a melhor aluna da sala. Perguntei quando ele iria me comprar a bicicleta e ele respondeu: só se for uma de madeira... Eu me senti um lixo...
Um dia, era meu aniversário e minha mãe iria viajar a passeio. Ela esquecera...
À tarde, na casa da minha avó, eu estava triste e chorosa porque minha mãe não se lembrara e minha avó, percebendo minha angústia, perguntou-me o motivo. Quando eu lhe disse ela me lançou aquele olhar de piedade. Depois me abraçou e me deu um presente. Chorei mais ainda por perceber que eu estava inspirando pena. Minha mãe voltou da viagem alegre, bêbada e feliz.
Até hoje ela esquece meus aniversários.
Passados um tempo, minha mãe foi trabalhar um outro estado e voltamos a morar na casa da minha avó, minha irmã e eu, onde quase fui estuprada por um tio. Minhas tias e tios nos espancavam todo dia. Acho que era ciúme da minha querida avó, Cândida. Eles agora tinham que dividi-la conosco.
Nos dias chuvosos eu fazia barquinhos de papel pra pôr nas poças de água que passavam na frente da casa da minha avó enquanto chorava ouvindo a música Pai de Fábio Júnior. Até hoje fico melancólica em dias de chuva, e sempre choro ao ouvir esta canção.
Um dia, meu pai veio nos buscar, porque, segundo ele, estávamos à toa enquanto nossa mãe viajava a trabalho.
Foi o melhor dia da minha vida. Eu finalmente iria morar com meu pai, finalmente eu seria amada e tratada com carinho.
Aí meu pai nos levou pra sua casa de dois cômodos, onde ele morava com outra mulher e já tinha outra filha, um bebê lindo e rechonchudo. Onde iríamos dormir? No chão, sob um tapete de uns dois centímetros. Na casa de meu pai só havia uma cama de solteiro que ele dividia com sua mulher e seu bebê. Mas pra mim, nada disso importava!
No dia seguinte, meu pai saiu com minha irmã e voltou sem ela. Havia entregue a uma família pra trabalhar como doméstica. Ele nem conhecia aquelas pessoas! Nem sabia onde moravam! Fui entregue a uma senhora viúva que tinha uma boutique. Ela me usurpou até meu nome: me chamava de Vanusa. Fui explorada até dizer chega. Era a última a dormir e a primeira a levantar. Só comia os restos de comida que ela deixava, se deixasse. Antes de sair com ela pra trabalhar na boutique, eu tinha que fazer o almoço, o café da manhã e só então acordá-la. Ela me obrigava a trabalhar de domingo a domingo. Certa vez ela me mandou fazer uma ensopado de carne com verduras. A panela estava pequena. Então ela me mandou trocar por uma panela maior. O refogado já estava fervendo há tempos no fogo. Quando virei a panela, o caldo entornou no meu pé, queimando-o. Ela gritava: meu cozido! Meu cozido! E eu ali, chorando de dor. Eu devia ter uns 11 anos e era menor do que a panela que tava no fogo.
Um dia meu pai, talvez pelo remorso, foi me buscar. Aí fomos buscar minha irmã e, pergunta daqui e dali, encontramos ela. A dona da casa nem deixou a gente entrar. E eu vi minha irmãzinha, descabelada, magra, com cara de sofrimento. Desatei a chorar e até agora quando lembro-me choro. Ela me confidenciou que quase fora estuprada pelo marido da dona da casa.
Não sei como, mas voltamos a morar com nossa mãe, que a esta altura já havia voltado de viagem. Meu pai voltou a se afastar. E as surras recomeçaram...
...(continua)...
ALMA INVOLUNTÁRIA
Não posso precisar tempo, mas sei que vivemos pouco tempo na casa da minha avó. Logo minha mãe consegui um trabalho em uma empresa e nós fomos morar de aluguel. Visualize: eu e minha irmã ficávamos sozinhas a maior parte do dia, pois minha mãe ia trabalhar poela manhã e chegava no final da tarde. Então o que fazíamos? Ficávamos na casa de colegas o dia todo ou fazíamos ~experiências em casa como, fazer bala de pó de suco artificial, farofa doce, bolinhos e etc. Não lembrávamos que nossa mãe iria chegar até ela chegar e descarregar sua raiva (por nós, pelo nosso pai, pelo trabalho?) nos surrando de várias maneiras. Eu me sentia como uma prisioneira do Dops. Ela prendia nossa cabeça entre suas pernas e mandava ver. Às vezes éramos surradas com cintos de couro, com socos e pontapés, com tapas na cara, com tesouras e facas em riste ameaçando invadir nosso corpo. Às vezes ela inovava e nos levava ao matagal para escolhermos o cipó com que iria nos amaciar. Éramos felizes enquanto ela estivesse trabalhando, mas quando ela estava em casa vivíamos em um inferno. Nossas amigas e suas mães detestavam nossa mãe tanto quanto ela as detestava. Nós não tínhamos o direito nem de falar se el não quisesse. Pense no absurdo de uma mãe esconder bitucas de cigarros pelos cantos da casa pela manhã e à tarde ir verificar se ainda estavam lá. Caso estivessem, mais surras pois isso significava que não tínhamos varriso a casa direito. Minha mãe nos batia praticamente todos os dias. Não existiam diálogos. E ninguém se metia a dar conselhos ou separar durante uma surra. Todos os nossos vizinhos "entendiam" que minha mãe nos estava corrigindo. Para eles isso tudo era o correto. Tinha uma escova de pentear de osso rosa da AVON que era nosso suplício. Levávamos bolos nas mãos com ela e tínhamos que dizer quantas dúzias queríamos de bolo em cada mão. Se tirássemos a mãe, a quantidade dobrava. Gritar então, nem pensar! Só me restava chorar baixinho e implodir por dentro toda vez que eu via o olhar sádico de prazer da minha mãe ao aplicar seus "corretivos". Lembro-me de um episódio especial desta época em que uma professora me perguntou porque minhas mãos estavam inchadas e eu lhe disse ingenuamente que eu havia ferido em um arame farpado. A escola nunca interviu. Meu único consolo era a minha querida avó, Cândida. Ela cuidava das minhas feridas. Não perguntava nada. Simplesmente cuidava de secar meus ferimentos, pôr mastruz nas minhas mãos pra desinchar. Calada, sempre calada. Mas o seu olhar de piedade por aquela criança amarela, magra e ferida era todo o amor de que eu precisava para não enlouquecer. Minha irmã fugia. Fugia da mãe, das surras e da culpa de saber que era a responsável pela separação dos pais. Essa era a sua cruz. Essa era a sua saída. Fugir pra casa de uma tia sempre que fazia algo considerado errado pela nossa mãe. A mim, covarde demais pra fugir, restava suportar.
Isso e muito mais...
...(continua)...
Isso e muito mais...
...(continua)...
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