Não posso precisar tempo, mas sei que vivemos pouco tempo na casa da minha avó. Logo minha mãe consegui um trabalho em uma empresa e nós fomos morar de aluguel. Visualize: eu e minha irmã ficávamos sozinhas a maior parte do dia, pois minha mãe ia trabalhar poela manhã e chegava no final da tarde. Então o que fazíamos? Ficávamos na casa de colegas o dia todo ou fazíamos ~experiências em casa como, fazer bala de pó de suco artificial, farofa doce, bolinhos e etc. Não lembrávamos que nossa mãe iria chegar até ela chegar e descarregar sua raiva (por nós, pelo nosso pai, pelo trabalho?) nos surrando de várias maneiras. Eu me sentia como uma prisioneira do Dops. Ela prendia nossa cabeça entre suas pernas e mandava ver. Às vezes éramos surradas com cintos de couro, com socos e pontapés, com tapas na cara, com tesouras e facas em riste ameaçando invadir nosso corpo. Às vezes ela inovava e nos levava ao matagal para escolhermos o cipó com que iria nos amaciar. Éramos felizes enquanto ela estivesse trabalhando, mas quando ela estava em casa vivíamos em um inferno. Nossas amigas e suas mães detestavam nossa mãe tanto quanto ela as detestava. Nós não tínhamos o direito nem de falar se el não quisesse. Pense no absurdo de uma mãe esconder bitucas de cigarros pelos cantos da casa pela manhã e à tarde ir verificar se ainda estavam lá. Caso estivessem, mais surras pois isso significava que não tínhamos varriso a casa direito. Minha mãe nos batia praticamente todos os dias. Não existiam diálogos. E ninguém se metia a dar conselhos ou separar durante uma surra. Todos os nossos vizinhos "entendiam" que minha mãe nos estava corrigindo. Para eles isso tudo era o correto. Tinha uma escova de pentear de osso rosa da AVON que era nosso suplício. Levávamos bolos nas mãos com ela e tínhamos que dizer quantas dúzias queríamos de bolo em cada mão. Se tirássemos a mãe, a quantidade dobrava. Gritar então, nem pensar! Só me restava chorar baixinho e implodir por dentro toda vez que eu via o olhar sádico de prazer da minha mãe ao aplicar seus "corretivos". Lembro-me de um episódio especial desta época em que uma professora me perguntou porque minhas mãos estavam inchadas e eu lhe disse ingenuamente que eu havia ferido em um arame farpado. A escola nunca interviu. Meu único consolo era a minha querida avó, Cândida. Ela cuidava das minhas feridas. Não perguntava nada. Simplesmente cuidava de secar meus ferimentos, pôr mastruz nas minhas mãos pra desinchar. Calada, sempre calada. Mas o seu olhar de piedade por aquela criança amarela, magra e ferida era todo o amor de que eu precisava para não enlouquecer. Minha irmã fugia. Fugia da mãe, das surras e da culpa de saber que era a responsável pela separação dos pais. Essa era a sua cruz. Essa era a sua saída. Fugir pra casa de uma tia sempre que fazia algo considerado errado pela nossa mãe. A mim, covarde demais pra fugir, restava suportar.
Isso e muito mais...
...(continua)...
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