Como já cheguei até aqui, posso me estender um pouco mais nesse tema: meus recalques.
Primeiro, pra entender meu complexo de Édipo e minhas frustrações vale dizer que hoje tenho uma relação legal com meu pai. Nós conversamos, ele já se abre mais comigo e isso é porque sou a filha que menos deu trabalho a ele. Sua filha mais velha é cheia de complexos e ele não a entende (N.A.: ele não a ouve!). Seu filho macho é distante dele. Sua filha caçula é totalmente dependente dele. E eu. Nunca dei trabalho, nunca fui presa, não dependo financeiramente dele. Não tenho problemas, pelo menos não que ele saiba. Isso se dá com minha mãe também. Ela me parece que tem uma limitada capacidade de amar. Um por vida. Talvez dois. Meu irmão e meu pai, nessa ordem. Após mais de 15 anos separados, meus pais reataram. Antes eram infelizes sozinhos. Agora são infelizes juntos.
Eu sou meio que o alter ego da família. Falo o que se deve falar, com muito respeito claro. Tento não invadir a privacidade nem constranger ninguém. Meu irmão fala ironicamente que eu gosto de "dar uma de psicológa". Confesso que isso me ofende. Mas ele não sabe disso (ou não sabia...). Mas sempre ponho o dedo na ferida e os faço enxergar mais longe, corrigindo seus enganos e, de certa forma, conseguindo trazê-los à razão.
Voltando ao cerne da postagem, carente da figura paterna, transferi meus amores para um perfil singular: quarentões. Freud explica.
Uma vez me lembro que estava no auge da adolescência, naquele período em que por si só já é complexo, acrescente a isso um ambiente familiar de abusos e exploração. Morávamos na casa da minha avó, falecida, com meus 6 tios. Minha mãe ia trabalhar cedo, voltava no fim do dia. Minha irmã ainda fugia. E eu ficava dividida entre os afazeres domésticos e os estudos. E havia também as surras e as humilhações. Um dia aos 14 anos, resolvi fugir pra morar com meu pai sonhando com uma vida mais digna. Juntei uns trocados de serviços prestados pela vizinhança, juntei minhas coisas numa caixa de papelão e fui embora. Como podia pensar em ser feliz morando com um pai que ficara ausente por tanto tempo, numa casa de 2 cômodos, dividindo este espaço com mais 4 pessoas? Eu pensava que seria feliz morando com meu pai. Pensava em trabalhar e estudar. Primeira decepção. Meu pai me proibia de fazer tudo. Mal deixava-me estudar à noite. A mulher dele fazia tantas fofocas quando pensava que eu dormia que até eu ficaria com ódio de mim. Então, um dia de chuva meu pai chegou à noite do trabalho, era motorista de transporte coletivo, e ouvindo sobre uma briga minha com meu irmão, me deu uma surra de corda de nylon. Passou um filme na minha cabeça. Era inimaginável voltar para aquela vida de abusos de novo. Não fora pra isso que eu havia fugido da casa da minha mãe... Saí pela rua desesperada, cruzando a rua à noite esperando um carro me atropelar, desiludida e desamparada. Quis morrer naquele dia, pois estava destruído diante de mim aquele sonho de viver uma vida mais decente com meu pai. O homem que deveria me amar acima de tudo. Que deveria me proteger, me amar, me acalentar. Ao voltar pra casa, triste por ainda estar viva, meu pai largou essa: "você veio atrapalhar minha vida. Quando eu fui embora, não deveria nem ter deixado endereço pra vocês não virem me incomodar." Eu morri um pouco naquele dia. Não só pelas palavras ofensivas, mas também pelo olhar frio que ele tinha.
Resultado, fui embora pra trabalhar com uma senhora dona de um restaurante. Eu era uma espécie de ajudante da cozinha e entregadora das marmitas. Não recebia salário e também fui explorada até a alma. Não só por ela, mas pela família toda. Era a babá dos seus netos, buscava e levava-os na escola, servia de garçonete nas festas de aniversário deles, era empregada doméstica substituta. E isso tudo sem salário. Fiquei com essa senhora uns 6 meses, até o dia em que ela tentou me trocar por um saco de feijão.
Aí fiquei batendo cabeça, fui ser empregada doméstica numa casa cuidando de um menino de três anos que tinha sarna e fazia as necessidades na fralda que eu tinha que lavar, ferver e passar, além de fazer as refeições da família, organizar e manter a casa arrumada, lavar as roupas da casa, fazer as compras, cuidar do menino e estudar. Eu, com 15 anos levava uma vida muito difícil, mas como eu não tinha que suportar abusos físicos de quem deveria me proteger, estava por minha conta e risco estava satisfeita. Era dona do meu nariz. As dificuldades eu tirava de letra porque era uma heroína de Sheldon. Tinha criatividade e até hoje sempre tenho um plano B. Em qualquer situação. Pelo menos aquelas pessoas nada me deviam. Quer dizer, só o salário.
Me envolvi com um homem quarentão, muito esperto que levou minha inocência. E nada deixou.
Mas no auge da usurpação eu pensava "vou fazer isso pra provar pra mim que eu tenho a liberdade de fazer". Era um desafio imposto a mim, por mim, numa verdadeira prova de imaturidade e inocência. Ele se deu bem. Quis me sustentar e eu não quis. Ele queria uma escrava sexual e eu não valia tão pouco assim. Até hoje penso assim. Pro melhor ou pro pior.
Quebrei a cabeça muitas vezes, mas voltei a voltar na casa da minha mãe também. Também voltei a morar com meu pai. Mas sem aquela dependência. Eu apenas dormia lá. Na casa da minha mãe era proibido chegar depois das 21h. Então eu dormia fora e isso me custava menos do que chegar depois das 21. Era uma série de humilhações, xingamentos, agressões físicas por estar interrompendo o sagrado sono de uma trabalhadora. Voltar no dia seguinte era indolor. Ninguém me perguntava onde havia dormido, com quem, onde, como, nem nada. Ninguém se interessava. Eu morava na casa da minha mãe, mas não interagia com ela. Não podia usar nada, porque ouvia que não era meu, que não me pertencia. Minha mãe fazia questão de tudo: copo, comida, colher, etc. E olha que eu ainda ajudava nas contas.
Quando engravidei, um dia minha mãe veio com tudo pra me agredir: queria me jogar da cozinha porta abaixo (uns cinco metros). Eu revidei e deste dia em diante nunca mais ela me agrediu. Detalhe, eu tinha 20 anos e aí sim precisei sair definitivamente da casa dela. Até hoje, aos 35 anos meus pesadelos são sempre assim: moro com minha mãe, tento ir embora e não tenho como sair.
Fui morar sozinha e ainda hoje pago o preço pelas minhas convicções. Hoje não tenho expectativas para com aqueles que deveriam me proteger e me amar. Sou mais independente. Mesmo que isso me custe carono fundo do meu coração e na essência da minha solidão. Mesmo que isso ainda me provoque alguma dor... Mas isso aí já é outro capítulo.
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