Bom, nós sobrevivíamos assim. Minha mãe, depois de nos surrar, chorava enquanto pensava que dormíamos. Eu a odiava ainda mais por isso. Se estava arrependida, por que fazia tudo de novo no dia seguinte? Às vezes fazia até pior!
Meu silêncio para minha mãe era pirraça. Eu até hoje tenho dificuldades de me expressar.
Tem muito mais coisas desse período, mas quero me reservar a falar de mim. Outros assuntos são legalmente proibidos e perigosos. Quem sabe um dia crio coragem e escrevo em um livro contando TUDO!?.
Sempre fui excelente aluna e as notas altas não serviam pra aplacar o ódio da minha mãe por nós.
Um dia meu pai apareceu. Alegria, felicidade...
Mas, tudo voltou ao que era: meu pai longe, meu irmão mais perto, mas ainda longe, minha mãe mais amargurada e ressentida, nós carentes de amor...
Lembro-me que eu andava na chuva, pés descalços caçando meu pai pelas ruas da minha cidade, chorando à vontade porque minhas lágrimas eram escondidas pela chuva e ninguém me perguntaria o motivo de estar chorando... Um dia, vi meu pai chegando, alegria, felicidade e orgulho ao dizer que finalmente eu iria ganhar a bicicleta que ele prometera se passasse de ano. Eu lhe disse que não só passara de ano, como fui a melhor aluna da sala. Perguntei quando ele iria me comprar a bicicleta e ele respondeu: só se for uma de madeira... Eu me senti um lixo...
Um dia, era meu aniversário e minha mãe iria viajar a passeio. Ela esquecera...
À tarde, na casa da minha avó, eu estava triste e chorosa porque minha mãe não se lembrara e minha avó, percebendo minha angústia, perguntou-me o motivo. Quando eu lhe disse ela me lançou aquele olhar de piedade. Depois me abraçou e me deu um presente. Chorei mais ainda por perceber que eu estava inspirando pena. Minha mãe voltou da viagem alegre, bêbada e feliz.
Até hoje ela esquece meus aniversários.
Passados um tempo, minha mãe foi trabalhar um outro estado e voltamos a morar na casa da minha avó, minha irmã e eu, onde quase fui estuprada por um tio. Minhas tias e tios nos espancavam todo dia. Acho que era ciúme da minha querida avó, Cândida. Eles agora tinham que dividi-la conosco.
Nos dias chuvosos eu fazia barquinhos de papel pra pôr nas poças de água que passavam na frente da casa da minha avó enquanto chorava ouvindo a música Pai de Fábio Júnior. Até hoje fico melancólica em dias de chuva, e sempre choro ao ouvir esta canção.
Um dia, meu pai veio nos buscar, porque, segundo ele, estávamos à toa enquanto nossa mãe viajava a trabalho.
Foi o melhor dia da minha vida. Eu finalmente iria morar com meu pai, finalmente eu seria amada e tratada com carinho.
Aí meu pai nos levou pra sua casa de dois cômodos, onde ele morava com outra mulher e já tinha outra filha, um bebê lindo e rechonchudo. Onde iríamos dormir? No chão, sob um tapete de uns dois centímetros. Na casa de meu pai só havia uma cama de solteiro que ele dividia com sua mulher e seu bebê. Mas pra mim, nada disso importava!
No dia seguinte, meu pai saiu com minha irmã e voltou sem ela. Havia entregue a uma família pra trabalhar como doméstica. Ele nem conhecia aquelas pessoas! Nem sabia onde moravam! Fui entregue a uma senhora viúva que tinha uma boutique. Ela me usurpou até meu nome: me chamava de Vanusa. Fui explorada até dizer chega. Era a última a dormir e a primeira a levantar. Só comia os restos de comida que ela deixava, se deixasse. Antes de sair com ela pra trabalhar na boutique, eu tinha que fazer o almoço, o café da manhã e só então acordá-la. Ela me obrigava a trabalhar de domingo a domingo. Certa vez ela me mandou fazer uma ensopado de carne com verduras. A panela estava pequena. Então ela me mandou trocar por uma panela maior. O refogado já estava fervendo há tempos no fogo. Quando virei a panela, o caldo entornou no meu pé, queimando-o. Ela gritava: meu cozido! Meu cozido! E eu ali, chorando de dor. Eu devia ter uns 11 anos e era menor do que a panela que tava no fogo.
Um dia meu pai, talvez pelo remorso, foi me buscar. Aí fomos buscar minha irmã e, pergunta daqui e dali, encontramos ela. A dona da casa nem deixou a gente entrar. E eu vi minha irmãzinha, descabelada, magra, com cara de sofrimento. Desatei a chorar e até agora quando lembro-me choro. Ela me confidenciou que quase fora estuprada pelo marido da dona da casa.
Não sei como, mas voltamos a morar com nossa mãe, que a esta altura já havia voltado de viagem. Meu pai voltou a se afastar. E as surras recomeçaram...
...(continua)...
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