Esse título nasceu em mim quando eu tinha cerca de 15 anos, era virgem e estava apaixonada por um homem casado. Ele, esperto, se aproveitou da minha paixonite e, créu!
No auge do meu sofrimento amoroso, brotou em mim este título que eu sabia iria dar em um livro. Como nunca tive em mim a segurança de me aventurar pela literatura como autora e aproveitando-me de um momento em que estou profundamente irritada e inspirada, vamos lá a minha história (preparem o lenço ou riam a valer).
Nascida em 75, filha do meio de um casal de jovens iludidos e fogosos (nasci no mesmo ano que minha irmã mais velha e um ano antes que meu irmão caçula), sempre me senti meio invisível.
Primeiro, porque não fui a tão esperada, desejada e amada 1ª filha filha, nem o tão almejado 1º filho macho. Sou e sempre serei a filha do meio. Até meu parto foi insignificante. Contam que quando o médico chegou, eu já estava calmamente nos braços de uma enfermeira que não me deixara cair no chão quando irrompi mundo afora.
Segundo, porque sempre fui muito observadora e sensível. Desde sempre lembro-me que meu pai me amou muito menos. Não só do que eu merecia por ser sua filha também, mas porque eu percebia que isso era apenas comigo. Não quero me antecipar... Vou começar devagar... Do início...
Minha mãe era muito jovem (menos de 15 anos) e sua relação com meu pai começou errada. É claro que as coisas que antecederam ao meu nascimento fiquei sabendo por eles mesmos, então, se eu cometer algum deslize, perdoem-me. Até porque, graças a Deus meus pais e irmãos estão vivos e saudáveis e podem (e devem, se necessário) me desmentir.
Filha de uma família paupérrima, minha mãe, uma branca no meio de vários irmãos negros, sempre foi valorizada por sua "beleza" e usava isso em seu favor. Sempre buscou trabalhar para mudar de vida (herdei estas características dela).
Conheceu meu pai, que já tinha mulher e filhos e abandonou a tudo para se casar legalmente com ela, num tempo em que ele, por ter uma habilidade muito valorizada (era motorista de caminhão), possuía emprego e tinha mais condições financeiras do que até então minha mãe conhecia.
Casados e com filhos sem terem tido tempo de se conhecerem mais profundamente antes da 1ª gravidez, eles perceberam tarde demais que tinham incompatibilidade de gênios. Minha mãe era a força, meu pai a fraqueza. Minha mãe era a água, meu pai o vinho. Minha mãe queria aproveitar a liberdade, meu pai era possessivo e ciumento. Resultado: brigas, brigas e brigas. E a separação veio após 10 anos de mentiras, desconfianças e desavenças.
E nós, os filhos no meio disso tudo sem entender porque nosso pai destruía nossas coisas após discutir com nossa mãe. Sem entendermos porque não nos alimentávamos mais nos horários de sempre, porque tínhamos que sair da nossa querida escola particular, porque nosso pai não mais nos poria em seus ombros, ou nos ensinaria a andar de bicicleta (embora eu sentisse que ele não tinha muita paciência comigo por não saber pedalar sem as rodinhas laterais e sempre evitasse me colocar à bicicleta, ao contrário da minha irmã, que pedalava com todo vigor), e sem entender porque nosso pai foi embora pra outro estado e levou nosso irmão com ele (por que ele não me levara?), ou porque tínhamos que sair da nossa casa e ir morar com nossa avó materna e com vários tios e tias numa casa que mal cabia eles quem diria nós... E como entender que nossos móveis foram vendidos por um pai vingativo que precisava de dinheiro pra viajar, e que não pensara em nós e decidira tudo isso em menos de uma semana, sem se despedir de nós, da nossa mãe, a não ser através de uma carta? Por que não nos explicavam nada?
Desde muito nova eu, talvez sob o domínio do complexo de Édipo, amei meu pai acima de todas as coisas. E ele sempre me frustrou. Mesmo agora.
Vivíamos numa espécie de limbo, pelo menos até a chegada das cartas de meu pai contando sobre sua vida em Aracaju com nosso irmão que líamos e chorávamos à exaustão. Lembro-me que nosso ritual era ouvir nossa mãe ler a carta e chorar com ela com saudades nos nossos queridos, embora eu hoje ache que a saudade da minha mãe se restringia ao meu irmão (seu único e verdadeiro amor).
Volto minhas lembranças até este tempo e posso afirmar que, sem sombra de dúvidas, nossa mãe sempre nos culpou (eu e minha irmã).
Não sei porque meu pai escolheu meu irmão. Pode ter sido pela sua masculinidade ou talvez para punir minha mãe. O que sei é que sempre pagamos o preço. Sempre me senti a filha desgraçada daquele desgraçado. A que tinha o sague ruim daquele homem que tanto a fizera sofrer. Anos e anos ouvimos isso. E muito mais... E foi aí que as agressões começaram...
E sei, com toda certeza, que foi a partir daí que passei a odiar a minha mãe. Com toda força do meu ser.
...(continua)...
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