domingo, 17 de abril de 2011

Recalques

Como já cheguei até aqui, posso me estender um pouco mais nesse tema: meus recalques.

Primeiro, pra entender meu complexo de Édipo e minhas frustrações vale dizer que hoje tenho uma relação legal com meu pai. Nós conversamos, ele já se abre mais comigo e isso é porque sou a filha que menos deu trabalho a ele. Sua filha mais velha é cheia de complexos e ele não a entende (N.A.: ele não a ouve!). Seu filho macho é distante dele. Sua filha caçula é totalmente dependente dele. E eu. Nunca dei trabalho, nunca fui presa, não dependo financeiramente dele. Não tenho problemas, pelo menos não que ele saiba. Isso se dá com minha mãe também. Ela me parece que tem uma limitada capacidade de amar. Um por vida. Talvez dois. Meu irmão e meu pai, nessa ordem. Após mais de 15 anos separados, meus pais reataram. Antes eram infelizes sozinhos. Agora são infelizes juntos.

Eu sou meio que o alter ego da família. Falo o que se deve falar, com muito respeito claro. Tento não invadir a privacidade nem constranger ninguém. Meu irmão fala ironicamente que eu gosto de "dar uma de psicológa". Confesso que isso me ofende. Mas ele não sabe disso (ou não sabia...). Mas sempre ponho o dedo na ferida e os faço enxergar mais longe, corrigindo seus enganos e, de certa forma, conseguindo trazê-los à razão.

Voltando ao cerne da postagem, carente da figura paterna, transferi meus amores para um perfil singular: quarentões. Freud explica.

Uma vez me lembro que estava no auge da adolescência, naquele período em que por si só já é complexo, acrescente a isso um ambiente familiar de abusos e exploração. Morávamos na casa da minha avó, falecida, com meus 6 tios. Minha mãe ia trabalhar cedo, voltava no fim do dia. Minha irmã ainda fugia. E eu ficava dividida entre os afazeres domésticos e os estudos. E havia também as surras e as humilhações. Um dia aos 14 anos, resolvi fugir pra morar com meu pai sonhando com uma vida mais digna. Juntei uns trocados de serviços prestados pela vizinhança, juntei minhas coisas numa caixa de papelão e fui embora. Como podia pensar em ser feliz morando com um pai que ficara ausente por tanto tempo, numa casa de 2 cômodos, dividindo este espaço com mais 4 pessoas? Eu pensava que seria feliz morando com meu pai. Pensava em trabalhar e estudar. Primeira decepção. Meu pai me proibia de fazer tudo. Mal deixava-me estudar à noite. A mulher dele fazia tantas fofocas quando pensava que eu dormia que até eu ficaria com ódio de mim. Então, um dia de chuva meu pai chegou à noite do trabalho, era motorista de transporte coletivo, e ouvindo sobre uma briga minha com meu irmão, me deu uma surra de corda de nylon. Passou um filme na minha cabeça. Era inimaginável voltar para aquela vida de abusos de novo. Não fora pra isso que eu havia fugido da casa da minha mãe... Saí pela rua desesperada, cruzando a rua à noite esperando um carro me atropelar, desiludida e desamparada. Quis morrer naquele dia, pois estava destruído diante de mim aquele sonho de viver uma vida mais decente com meu pai. O homem que deveria me amar acima de tudo. Que deveria me proteger, me amar, me acalentar. Ao voltar pra casa, triste por ainda estar viva, meu pai largou essa: "você veio atrapalhar minha vida. Quando eu fui embora, não deveria nem ter deixado endereço pra vocês não virem me incomodar." Eu morri um pouco naquele dia. Não só pelas palavras ofensivas, mas também pelo olhar frio que ele tinha.

Resultado, fui embora pra trabalhar com uma senhora dona de um restaurante. Eu era uma espécie de ajudante da cozinha e entregadora das marmitas. Não recebia salário e também fui explorada até a alma. Não só por ela, mas pela família toda. Era a babá dos seus netos, buscava e levava-os na escola, servia de garçonete nas festas de aniversário deles, era empregada doméstica substituta. E isso tudo sem salário. Fiquei com essa senhora uns 6 meses, até o dia em que ela tentou me trocar por um saco de feijão.

Aí fiquei batendo cabeça, fui ser empregada doméstica numa casa cuidando de um menino de três anos que tinha sarna e fazia as necessidades na fralda que eu tinha que lavar, ferver e passar, além de fazer as refeições da família, organizar e manter a casa arrumada, lavar as roupas da casa, fazer as compras, cuidar do menino e estudar. Eu, com 15 anos levava uma vida muito difícil, mas como eu não tinha que suportar abusos físicos de quem deveria me proteger, estava por minha conta e risco estava satisfeita. Era dona do meu nariz. As dificuldades eu tirava de letra porque era uma heroína de Sheldon. Tinha criatividade e até hoje sempre tenho um plano B. Em qualquer situação. Pelo menos aquelas pessoas nada me deviam. Quer dizer, só o salário.

Me envolvi com um homem quarentão, muito esperto que levou minha inocência. E nada deixou.

Mas no auge da usurpação eu pensava "vou fazer isso pra provar pra mim que eu tenho a liberdade de fazer". Era um desafio imposto a mim, por mim, numa verdadeira prova de imaturidade e inocência. Ele se deu bem. Quis me sustentar e eu não quis. Ele queria uma escrava sexual e eu não valia tão pouco assim. Até hoje penso assim. Pro melhor ou pro pior.

Quebrei a cabeça muitas vezes, mas voltei a voltar na casa da minha mãe também. Também voltei a morar com meu pai. Mas sem aquela dependência. Eu apenas dormia lá. Na casa da minha mãe era proibido chegar depois das 21h. Então eu dormia fora e isso me custava menos do que chegar depois das 21. Era uma série de humilhações, xingamentos, agressões físicas por estar interrompendo o sagrado sono de uma trabalhadora. Voltar no dia seguinte era indolor. Ninguém me perguntava onde havia dormido, com quem, onde, como, nem nada. Ninguém se interessava. Eu morava na casa da minha mãe, mas não interagia com ela. Não podia usar nada, porque ouvia que não era meu, que não me pertencia. Minha mãe fazia questão de tudo: copo, comida, colher, etc. E olha que eu ainda ajudava nas contas.

Quando engravidei, um dia minha mãe veio com tudo pra me agredir: queria me jogar da cozinha porta abaixo (uns cinco metros). Eu revidei e deste dia em diante nunca mais ela me agrediu. Detalhe, eu tinha 20 anos e aí sim precisei sair definitivamente da casa dela. Até hoje, aos 35 anos meus pesadelos são sempre assim: moro com minha mãe, tento ir embora e não tenho como sair.

Fui morar sozinha e ainda hoje pago o preço pelas minhas convicções. Hoje não tenho expectativas para com aqueles que deveriam me proteger e me amar. Sou mais independente. Mesmo que isso me custe carono fundo do meu coração e na essência da minha solidão. Mesmo que isso ainda me provoque alguma dor... Mas isso aí já é outro capítulo.

sábado, 19 de março de 2011

Desenganos...

Relendo minhas escrituras percebi um tom de instinto piedoso. Não me entendam mal. Ninguém de perto é normal e por falta de um terapeuta para desaguar meus mares de rancores, despejo aqui, neste ambiente minhas frustrações, medos, traumas, anseios e segredos.
Já recebi críticas por estar abrindo a alma, mas há um sentimento que me impele e vou seguir meu coração. Até me sinto mais leve. rsss
Quem não gostar, não goste. Cada um com seus problemas.
Então, não escrevi para inspirar piedade pura e simplesmente. Quem convive comigo sabe que não sou uma pessoa amargurada, ao contrário: sou pra cima, alto astral, solidária, gosto de abraçar, beijar, colaborar. Sou "leve".
Mas sou o que sou por causa da minha história. Derramando essas lágrimas presas há tanto tempo consigo passar pelo processo de catarse e curar minhas neuras de uma forma deliciosamente perigosa e sadia. Perigosa porque estou falando de terceiros também, e deliciosa porque posso reler minha história com um novo olhar e talvez entender agora o que antes eu não entendia (ou não entendo...).
Então por favor, leiam sem moderação.

domingo, 16 de janeiro de 2011

História Repetida

Já contei que sou meio recalcada. Às vezes sinto que repito algumas coisas que ouço de alguém, atos, palavras, reações... Mas, ao longo desses anos, aprendi com a minha mãe que algumas situaçõs eu tenho a obrigação de jamais repetir.
Principalmente quando se trata de algo relacionado à minha filhinha. Por exemplo, se eu me vejo diante de alguma situação em que preciso escolher como tratá-la, parto do princípio de como minha mãe me tratava. Aí, faço o contrário. Assim sei que estou fazendo a coisa certa.
Mas, tem coisas que me vejo repetindo, mesmo me policiando ao extremo. Em relação aos meus amores, por exemplo.
Mantive um relacionamento de quase 9 anos. Era muito amor, muita dedicação. Foi o mais longo da minha vida. Dei-me quase por completo. Mas, chegou um momento em que me senti meio obrigada a escolher entre um amor e outro: ou ele, ou a minha filha. Dizem que os filhos são os pontos fracos das mães. Não entendo isso...
No meu caso, a minha filha é o meu ponto mais forte. Sem ela eu talvez estivesse mais à deriva neste barco que é a vida. A minha filha não foi planejada, mas foi muito, muito desejada. Sempre me senti muito só. Como se eu não fizesse parte da história que estava sendo contada. Tentava me ver como protagonista dessa história, mas sempre me via como uma figurante. Nunca fui importante para ninguém. Era cheia de amor para trocar e nunca havia encontrado alguém que eu soubesse que merecesse o meu amor incondicional.
A minha filha mudou isso. Ela é a minha melhor criação, com ela eu sei que desempenho o meu melhor papel. Me sinto completa ao olhá-la, ao falar com ela, a cheirá-la, a abraçá-la. O simples fato de lembrar que ela existe me dá uma felicidade que não daria para escrever com essas linhas. Lembrar dela me faz sorrir de felicidade.
Ela sou eu. E eu sou a minha mãe. Tento recuperar sentimentos há muito guardados em mim. Tento fazer com ela o que gostaria que a minha mãe tivesse feito comigo. Busco redimir a minha mãe no meu coração através da minha filha. Nem sempre dá certo, principalmente quando estamos juntas: minha mãe e eu. Ela parece que sempre tem algum ponto negativo para abordar, sabe? E nessas horas me dá vontade de perguntar: o que você sabe sobre isso? Você nunca cuidou de mim... Mas, me calo. E sinceramente nem sei porque. Talvez exista em mim esperança. Ou talvez eu tenha dado minha mãe como um caso perdido...
Sempre que tenho alguma dúvida sobre o que fazer, busco o conforto de saber que tenho que fazer primeiramente aquilo que for o melhor para a minha filha. E isso é o meu leme, o meu norte.
Então, como eu estava falando desse amor de quase 9 anos. Eu tenho o dedo podre para escolher homens. Todos aqueles que balançaram meu coração, fizeram tantos estragos que foi por pura sorte de ter um tesouro como a minha filha que não desisti de viver.
O primeiro, seu pai, é um ausente. Nunca se sentiu responsável por essa filha linda e maravilhosa que Deus nos deu. O segundo, meu grande amor, vinha de um outro relacionamento com filho também e isso chocou nossa relação terrivelmente. A tal mulher não largou o osso e pronto.
O terceiro e último, o mais maduro, centrado, seguro. Encantou-me porque encantou meu tesouro, minha filha. Era adorável, amoroso, companheiro, carinhoso. Depois de certo tempo, parecia me disputar com ela e quando isso acontecia era uma merda. Porque eu, claro, ficava sempre com minha exclusívissima prioridade: ela.
A coisa foi degringolando, e aí, ...deu!
Nunca pensei que ela estivesse exposta a qualquer risco com ele e quando vi essa possibilidade foi horrível. Alías, vi que nós duas corríamos um grave risco diante de alguém descontrolado, passional, cruel, vingativo, dominador, canalha, violento. Foi uma triste surpresa ver que me enganara por tanto tempo com alguém para com quem investi tanto por nada.
Mas, não titubeei em momento algum ao encerrar essa relação. Jamais pensaria no risco que corremos, e diante dele, só pude rezar para que nada de grave acontecesse primeiro a ela, depois a mim. Graças Deus estamos protegidas agora.
Tem lições que nem minha mãe pôde me ensinar.
Lição vivida, lição aprendida.
Obrigada Deus, pela saúde da minha filha.
Amém!